Senhor Governador,

 

Diz um velho ditado, "que das crises nascem soluções". Ele pode ser aplicado à crise da água que assola Minas. Em entrevista coletiva, V.Exa. anunciou medidas relativas à estrutura de abastecimento e consumo que são sem dúvida necessárias a curto prazo, mas que no máximo amenizarão a crise, porque o risco que corremos Senhor Governador, é muito maior que ficar sem água em casa: é ficarmos sem água nos rios devido ao mau uso do solo, ao desmatamento e à poluição.

Provavelmente a Coordenadoria de Defesa Civil e a Copasa não lhe disseram que praticamente todos os cursos d´água com suas respectivas áreas de recarga e nascentes, que abastecem a barragem do Rio Manso, estão desprotegidas, sem cobertura vegetal. A água das chuvas que caem cada vez menos devido às alterações climáticas, ao invés de se infiltrarem, escorrem pelo solo pelado, e vão embora, levando consigo, a cada ano, sedimentos que entopem os cursos d´água. Tanto é, que em sua entrevista, V.Exa. nada disse sobre recuperar a cobertura vegetal onde for necessário e adotar, a curto prazo, outras medidas que mostrarão seu benefícios a longo prazo.

Se V.Exa. pedir um estudo sério sobre as bacias hidrográficas mineiras, que tenha como um de seus parâmetros os planos de recursos hídricos já elaborados verá que a situação, na maior parte delas é semelhante à do rio Manso. Mas verá, por outro lado, em outras bacias, como em Extrema ou em Paracatu, que recuperar áreas de recarga e proteger nascentes é a única forma de garantir o funcionamento da fábrica de água, que é a natureza. Cobertura vegetal, água e solo, Senhor Governador, é um trio indivisível.

Citamos as nascentes dos rios Araçuaí, Jequitinhonha e Preto. A diferença entre a parte das mesmas que está dentro do Parque Estadual do Rio Preto e a que está fora é impressionante. A primeira, completamente protegida. A segunda, detonada por fogo e sendo pisoteada por insustentável pastoreio de gado. Não há água que resista e não há milagre que mude isto. Somente ações.

Uma das medidas mencionadas em sua entrevista coletiva foi transpor água do rio Paraopeba para a barragem do rio Manso. Se esta possibilidade for acompanhada de estudos de impacto ambiental, técnicos e sérios, como determina a Lei, eles dirão o que dá para ser visto por qualquer leigo: o Paraopeba e seus tributários também estão morrendo, assolados por ocupação desordenada do solo, incêndios, pisoteio de gado, minerações irresponsáveis, despejo de esgoto e lixo e desmatamento. E dirão que a transposição pode encher novamente a barragem, por algum tempo. Até o dia em que Paraopeba se tornar um filete de água suja.

Não seria mais lógico, Senhor Governador, que a recuperação ambiental da bacia do rio Manso fosse iniciada imediatamente? E que a proteção ou recuperação de tantas outras tornasse-se prioridade de seu governo?

Outro detalhe importante Exa., é estarmos todos conscientes de que apesar do uso doméstico da água vendida pela Copasa corresponder a no máximo 15% do consumo de nossos mananciais, o consumo industrial, de serviços e do agronegócio principalmente, corresponde a mais de 60% do que é captado nos cursos d´água; que a perda pelas instalações e adutoras é de mais de 35%. Portanto, apesar de indispensáveis, as campanhas de economia de água não podem ser dirigidas somente à população. É preciso políticas de incentivo e até exigência de reuso da água nos processos industriais, de redução do consumo no setor de serviços, nas repartições públicas e no setor agropecuário, através de ações como aproveitamento das águas de chuvas para irrigação e implantação de técnicas que reduzam o consumo.

V.Exa. está tendo uma chance incomparável de, marcar seu governo por políticas reais de sustentabilidade. Faça com que a proteção do meio ambiente e o uso responsável dos recursos naturais de Minas permeiem todos os projetos ou políticas públicas em sua gestão; garanta que pessoas competentes, honestas e comprometidas sejam nomeadas para os cargos públicos; reviva o Conselho Estadual de Política Ambiental - Copam, como instância democrática de participação da sociedade na gestão dos recursos naturais; libere os recursos da compensação ambiental e do Bolsa Verde sequestrados pelo governo anterior; apoie os comitês de bacias, liberando inclusive os recursos oriundos da cobrança da água onde já foi implantada e que foram também “sequestrados” no governo anterior; implante as unidades de conservação existentes, gerando empregos diretos e indiretos através do turismo e educação ambiental; crie novas áreas legalmente protegidas; faça um check up "verde" na administração pública visando poupar recursos, reduzir desperdícios e ecologizar as compras e obras do governo; implante políticas de estímulo e fomento a indústrias limpas, como energia solar e reciclagem; convoque a Emater e o IMA a internalizarem políticas ambientais em suas agendas, visando, como prioridade, trabalharem junto aos produtores rurais para racionalizar consumo de água e adotarem medidas para sua proteção, como não permitir pisoteio do gado em áreas de recargas, nascentes, margens de cursos d´água; superpastoreio e uso indiscriminado do fogo, cujas impactos ambientais agigantam-se a cada ano. 

E se assim for Senhor Governador, V.Exa. terá certamente apoio, reconhecimento e aplausos de toda a sociedade.

1 - Associação Mineira de Defesa do Ambiente - Amda

2 - Instituto Hóu para Cidadania

3 - Fundação Relictos

4 - Ecoavis - Ecologia e Observação de Aves

5 - Associação Amigos de Iracambi

6 - Ambiente Brasil Centro de Estudos

7 - Ceco - Centro de Estudos Ecológicos e Educação Ambiental

8 - Anga - Associação para a Gestão Socioambiental do Triângulo Mineiro

9 - MAMBH-Movimento das Associações de Moradores de Belo Horizonte

10 - Associação Geral Alphaville Lagoa dos Ingleses

11 -Condomínio Retiro das Pedras

12 – Condomínio Aconchego da Serra

13- Movimento Pró Rio Todos os Santos e Mucuri

14- Comitê de Bacia Hidrográfica do Rio Mucuri

Carta Aberta ao Governador Fernando Pimentel.

Data: 09 / 02 / 2015.

Governador do Estado de Minas Gerais Fernando Pimentel.

Reunião de  entidades ambientalistas de Minas Gerais em Belo Horizonte.