O que me pareceu mais interessante nos relatórios da CPRM de Acompanhamento da Estiagem na Região Sudeste do Brasil é a falta de resiliência das bacias (todas de grande porte) para essa anomalia nas precipitações. Secas não se instalam de um ano para o outro. São o efeito combinado de anos em que a razão Precipitação (P) / Evapotranspiração (EVP) fica menor que 1.0, mais a diminuição progressiva da capacidade do solo da bacia em armazenar a água pluvial (∆S), com todas as variáveis medidas em mm. Não deveria estar acontecendo o que se verifica na vazão dos rios. Parece que as atividades antrópicas diminuíram quase totalmente a resiliência.

Não temos controle sobre Precipitação, mas podemos modificar Evapotranspiração e a capacidade do solo da bacia em armazenar a água pluvial. Se as condições da bacia estivessem boas para a capacidade do solo da bacia em armazenar a água pluvial (i.e. sem compactação e degradação do solo) haveria água para satisfazer as demandas da Evapotranspiração e não haveria essa queda acentuada na vazão (Q) dos rios, também medida em mm. Eu continuo a pensar que não estão sendo planejadas as medidas necessárias para voltar com boas condições da capacidade do solo da bacia em armazenar a água pluvial e diminuição da Evapotranspiração, especialmente pela diminuição da área coberta por flora nativa. Outro fator que deve ser levado em conta é a exploração dos rios para fornecimento de energia elétrica através da construção de barragens, que impacta tanto Evapotranspiração quanto na capacidade do solo da bacia em armazenar a água pluvial

Persistindo a tendência de desaparecimento da flora nativa e sua substituição por culturas agrícolas, cidades e pastagens, além da continuação de construção de barragens e reservatórios, com baixas taxas de infiltração de água, aumento nas áreas com erosão no solo, e elevação da Evapotranspiração, a hidrologia das bacias vai se transformar em algo como bacias de solo rochoso e desértico, onde se observação inundações rápidas e com grande energia associada aos fluxos concentrados.

A reversão da atual condição de desvios negativos na altura das precipitações em relação à Normal Climatológica 1961-1990 e aos dados entre 1991 até 2014 vão trazer consequências ainda mais desastrosas para as bacias estudadas. Está ocorrendo um processo de desertificação em que enchentes rápidas e devastadoras, como observado em regiões subtropicais dos EUA neste ano, especialmente no Texas e Arkansas. Ou o que ocorreu no Nordeste entre 2005 e 2008.

A reabilitação dos solos e da flora nativa nas bacias estudadas deve começar a ser feita em larga escala, com bases em zoneamento ecológicos e mudança no modo como as cidades, a agricultura e a pecuária são manejadas para maximizar as taxas de infiltração, e também começar a se estudar se a exploração dos rios para fornecimento de energia elétrica através da construção de barragens já não chegou ao limite hidrológico.

 

 

Millôr Godoy Sabará,

Engenheiro Florestal. D.Sc. Ecologia e Recursos Naturais.

Universidade do Estado de Minas Gerais -UEMG, Unidade de João Monlevade.

Faculdade de Engenharia. Departamento de Recursos Naturais, Ciências e Tecnologias Ambientais, Curso de Engenharia Ambiental.

Considerações sobre a Estiagem na Região Sudeste do Brasil.

Data: 01 / 07 / 2015.

Seca no Rio Doce em Governador Valadares - MG

Cheia no Rio Doce em Governador Valadares - MG