O Sol surge bem cedo no horizonte do sertão norte da Bahia.

Estamos no município de Curaçá, a cerca de noventa quilômetros de Juazeiro – região onde o cangaço deixou rastros.

Logo a paisagem se ilumina, revelando uma vegetação espinhosa.

Como estamos no período seco, a mata mostra um tom branco-acinzentado, que originou o nome da Caatinga, em Tupi: (Caa = mata + tinga = branca).
 A biodiversidade aqui, explicam os especialistas, se expressa não em quantidade de espécies, mas no fato de existir na região o que eles chamam de alto grau de endemismo. Ou seja, a Caatinga tem espécies que só ocorrem aqui e em nenhum outro lugar do mundo.

É o caso de algumas araras.

Entre elas a mais rara de todas: a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii), que hoje existe apenas em alguns criadouros.

O último indivíduo dessa espécie que havia na região de Curaça desapareceu há duas décadas.

A ave chegou a esse ponto por dois motivos principais: perdeu habitat em função do desmatamento na Caatinga e, por sua raridade, virou troféu para colecionadores excêntricos, que estimularam durante anos sua captura e comércio ilegais.

O plantel espalhado em cativeiros soma hoje cerca de cento e vinte ararinhas em instituições do Brasil, Alemanha e Catar. Todos acompanhados pelo governo brasileiro.

Com o sucesso na reprodução em cativeiro obtido nos últimos anos, os pesquisadores já pensam em devolver algumas dessas ararinhas ao seu ambiente natural.

Um acordo entre instituições de pesquisa e o governo federal prevê a soltura de pelo menos dez indivíduos no sertão da Bahia daqui a dois anos.
 
Ponte

Mas antes de soltar as ararinhas na natureza, são necessárias algumas medidas prévias, que podem influir no resultado da reintrodução.
Entre elas criar um centro de reprodução das ararinhas e, talvez o mais difícil, estabelecer na área uma unidade de conservação para garantir proteçào às aves.

 Enquanto busca recursos junto a financiadores públicos e privados, o projeto Ararinha na Natureza, responsável pela ousada iniciativa, prepara o terreno.
 É onde entram os jovens baianos.

Alguns deles integram uma iniciativa do ICMBio que arregimenta pessoas todo o país para atuar em unidades de conservação e em projetos de espécies ameaçadas.

O Programa de Voluntariado, relançado no ano passado com apoio do WWF-Brasil e da Coalizão Pró-Ucs, quer aproximar a sociedade das áreas protegidas e da biodiversidade.

A ideia é aprofundar a noção de pertencimento dessas áreas pelo público e multiplicar a noção de que é importante conservar a natureza, diz o escopo do programa.

Futuro

Recém formada no ensino técnico de nível médio em Agropecuária, Letícia Pereira de Matos, 19 anos, e a estudante Fabiana Ferreira do Nascimento, 21 anos, são voluntárias do programa.

Neste momento, elas apoiam algumas pesquisas de campo na Caatinga que abrirão caminho para a volta a ararinha-azul.

Em uma manhã quente do sertão na semana passada, elas deixaram as atividades diárias para ajudar a coleta de dados da maracanã-verdadeira (Primolius maracana), um psitacídeo comum na região.

É que quando houver a reintrodução das ararinhas-azuis, as maracanãs terão um papel importante, servindo de referência de hábitos selvagens para aquelas que virão. Por isso, quanto mais se souber sobre essas aves, melhor.

A ação é coordenada pela responsável técnica do projeto Ararinha na Natureza, a veterinária Camile Lugarini, do ICMBio, com apoio da pesquisadora associada do Instituto Arara-Azul do Pantanal, Grace Ferreira da Silva.

 As pesquisadoras fazem a iniciação científica das jovens e ensinam o manejo com as aves.

 Arvorismo

Primeiro, é preciso escalar as frondosas caraibeiras, árvores que se destacam na paisagem da Caatinga e onde as maracanãs fazem os ninhos, aproveitando os ocos existentes.

Como é época de reprodução das aves, os ocos da caraibeiras ocultam ninhadas de maracanãs. Alguns filhotes têm menos de um mês de vida.
É preciso pegar um a um e para uma série de procedimentos.

Com ajuda das técnicas de arvorismo, as pesquisadoras acessam os ninhos e descem os filhotes, bem acomodados.

No chão, as voluntárias deixam tudo pronto.

São as assistentes da operação que inclui a coleta de sangue para exames clínicos e de DNA, a colocação de anilhas para identificar e monitorar as aves e a introdução de chip eletrônico, uma espécie de carteira de identidade do bicho, alojado sob a pele.

E assim segue o trabalho diário, que prepara o terreno para a chegada das ararinhas.

O apoio dos voluntários nas ativididades de campo completam e facilitam o trabalho dos pesquisadores . Ao todo, oito jovens estudantes da região integram o programa no município de Curaçá.

 Eles ajudam no manejo e nas pesquisas de campo, o que inclui entrevistas com os moradores, envolvimento da comunidade e uma série de outras ações que os integram ao trabalho de conservação da biodiversidade.

Essa experiência está mudando os planos de futuro dos jovens de Curaçá.

Damilys Maria da Silva Oliveira, 17 anos, é voluntária. Ela acaba de fazer o Exame Nacional de Ensino Médio, o Enem, e foi muito bem pontuada. Que curso ela almeja? Acertou quem pensou Biologia. Estudar Ecologia também é uma opção, diz ela.

“O que eu quero é ficar no campo e ver realizar do sonho do meu avô, que via aqui na Caatinga bandos da ararinhas-azuis, soltas, voando por aí”.
“Os voluntários de hoje poderão ser os pesquisadores de amanhã. Essa experiência no campo pode mudar o destino deles para melhor. E o futuro da Caatinga também”, espera Camile Lugarini.
por Jaime Gesisky

por Jaime Gesisky

Fonte: www.wwf.org.br

Na Caatinga, jovens voluntários preparam a volta da ararinha-azul

Data: 05 / 02 / 2017.

A ave perdeu habitat em função do desmatamento na Caatinga

A mais rara de todas: a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii).