O surto de febre amarela em Minas Gerais tem preocupado as autoridades públicas de saúde, a população e também os pesquisadores que estudam as espécies de primatas catalogadas nos trechos de Mata Atlântica no Leste do estado.

Mesmo sendo considerado pela Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais o maior surto de febre amarela já registrado no estado, o professor e doutor em ecologia, Sérgio Lucena Mendes, acredita os mais afetados pela doença são os macacos barbados, ou espécie Alouatta, como são conhecidos na região.

Entre os dias 17 e 20 deste mês, o professor e a pesquisadora americana, Karen Strer, estiveram na reserva ecológica Feliciano Miguel Abdala, em Caratinga, para analisar os impactos causados pela surto de febre amarela.

“É preciso entender que os primatas são mais suscetíveis a adoecer com o vírus da febre amarela. O surto, na verdade, quem está vivendo são os primatas, porque para os humanos não existe uma epidemia da doença, mas para os macacos barbados sim. Eles estão morrendo milhares. Lamentamos a morte humana, mas atualmente as maiores vítimas da doença são primatas”, disse o pesquisador.

Sergio Mendes afirma ainda que o objetivo da expedição é montar um plano para monitorar os impactos desse surto sobre a população de primatas, e avaliar o choque ecológico que a biodiversidade brasileira está sofrendo com o surto da doença.

 “Precisamos saber exatamente como essa doença está se dispersando na paisagem, e nos prepararmos para tomar atitudes que visem a conservação desses primatas, depois que o surto passar. No momento nós não temos muito o que fazer para impedir que eles venham adoecer”, diz.

Sérgio relembra que em 2009 o estado do Rio Grande Sul também registrou um surto da doença, e que na ocasião a população de Bugiu, como é conhecido os Barbados na região do Sul do país, foi a mais afetada.

“Há sete anos passamos por algo parecido ao que está ocorrendo hoje, só que no Sul do Brasil. Cerca de 80% dos primatas foram mortos em decorrência do vírus, o que significa a mortandade de 2 mil macacos. Em humanos, 90% não tiveram sintomas ou tiveram sintomas brandos, e em 10% a doença se manifestou de forma mais grave; foram sete pessoas mortas. Para o ser humano existe vacina que é completamente eficaz, mas não podemos sair vacinando os macacos nas matas”, explicou.

Risco de extinção

De acordo com o professor, no Leste de Minas Gerais existem cinco espécies de primatas ameaçados de extinção. “São três categorias que caracterizam extinção. A primeira é vulnerabilidade, seguida de perigo, e por último criticamente em perigo. Quando essas populações são atingidas por uma epidemia, elas podem subir da categoria de ameaçadas, e serem empurradas para a extinção”, alertou.

A doutora Karen Strer estuda os Muriquis há mais de 30 anos, e, como a espécie estudada por ela também vive na Mata Atlântica, na região de Caratinga, junto com os Barbados, houve uma preocupação de que os Muriquis também pudessem ser afetados com o surto.

“Estou aqui porque quero me certificar que a população de Muriquis continua forte, e que não perdemos muitos animais. Já vimos muitos deles, todos têm nome, mas ainda não encontramos os 350 que vivem nesta mata. Portanto, minha equipe segue a procura dos demais. Tenho esperança de que os Muriquis tenham mais resistência que os Barbados, no que diz respeito à febre amarela, mas nós ainda não podemos afirmar isso com certeza".

Sentinelas

Sérgio Mendes alerta que os macacos já estavam morrendo antes mesmo da doença tirar vítimas humanas em Minas Gerais. O pesquisador localizou na reserva Miguel Abidala, uma ossada de um possível Barbado, que morreu há mais de 40 dias.

“Os macacos se comportam como sentinelas da febre amarela. A doença é transmitida por mosquitos. Mesmo doentes, os macacos não têm a condição de infectar. Por isso, os primatas são um sinalizador para alerta da doença, e não um transmissor. Eles são afetados antes dos seres humanos. Como os animais estão nas matas, mais expostos aos mosquitos, eles são mais sensíveis. Quando um macaco aparece doente, isso é um sinal que nós humanos estamos expostos também”, apontou.

De acordo com Mendes, na região Leste de MG existem muitos fragmentos de Mata Atlântica, e também muitos moradores que habitam próximo a reserva. Essa interação entre natureza e homem pode ser a razão da incidência de febre amarela silvestre no ser humano.

“Os macacos não estão levando a doença de um lugar para o outro, isso porque eles não saem da mata. Então de alguma forma esse vírus está viajando da mata e atingindo pessoas que moram em zona urbana. Isso precisa ser identificado e estudado. Em um primeiro momento acredito que pode ser o próprio mosquito que tem uma mobilidade maior e pode chegar até 5 km. Outra forma é que esses mosquitos também podem ser acidentalmente transportados, talvez por caminhões de carga até a cidade”, diz.

Mortes em MG

A febre amarela começou a vitimar os primeiros pacientes no Leste e Nordeste de Minas Gerais no início do mês de janeiro. Na sexta-feira (20), data da última atualização, a Secretaria Estadual de Saúde informou que 25 pessoas morreram em decorrência de febre amarela contraída no estado. De acordo com a secretaria, existem 272 casos notificados da doença; destes, 47 foram confirmados.

Segundo a secretaria, as mortes fora nos municípios de Ladainha (8), Piedade de Caratinga (2), Ipanema (3), Malacacheta (2), Imbé de Minas (1), São Sebastião do Maranhão (2), Frei Gaspar (1), Itambacuri (2), Poté (1), Setubinha (1), Teófilo Otoni (1), Ubaporanga (1).

Fonte : http://g1.globo.com/mg/vales-mg/noticia/

As maiores vítimas da febre amarela são os primatas

Data: 23 / 01 / 2017.

Estudo visa analisar os impactos causados pela surto nas espécies.

Pesquisadores colheram amostras em reserva ecológica em Caratinga.